segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mudanças e lógicas

Quando éramos pequenas, sempre que a minha irmã se machucava eu costumava perguntar:
 -Essa é a pior dor que você já sentiu?
E ela sempre respondia:
-Sim, é.
Sempre questionei o referencial, a gente muda de ideia o tempo inteiro, um grande amor pode ser apenas uma paixãozinha boba no decorrer da sua vida. Uma dor absurda no presente pode ser um pequeno mal-estar se comparado a uma nova dor no futuro.
Os referenciais sempre mudam, queira você ou não.
Quantas vezes você já se pegou pensando o que faria se conhecesse o seu futuro no passado?
Se alguém te contasse que aquele momento difícil seria crucial para a construção dos seus valores?
Se cada vez que você caísse, se lembrasse que vai aprender a se erguer?
Quantas vezes você acreditou que mudaria de opinião?
Se não acredita que vai mudar de opinião, acredite! A vida mudará!
O mundo gira, se você não mudar, as pessoas ao seu redor mudarão. Você se pegará em situações inusitadas, as relações mudarão, os espaços serão outros, tudo muda o tempo todo.
E tais transformações só respeitam uma lógica: a do tempo.
Não adianta tentar manipular os fatos, o que tiver de ocorrer, acontecerá, pense você o que quiser.
Hoje só me responsabilizo pelos meus sentimentos atuais e entendo que pertencem a este determinado momento histórico. Se eu descrevesse a minha vida, os meus sentimentos, as minhas relações tais quais elas são hoje, provavelmente me acharia ridícula daqui 10 anos quando relesse essas linhas.
 Posso dizer que tenho um ideal de trabalho, uma meta de vida a médio prazo, um ideal de felicidade. Posso dizer que minha casa é meu reduto de paz. Que não saberia viver sem os meus pais. Que meus amigos de infância deverão ser meus padrinhos de casamento, se é que eu vou casar.
Se eu pudesse apostar alguma coisa do futuro diria que meu maior medo continuará sendo o mesmo medo desses 27 anos: a solidão compulsória.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O cerne da Babilônia.

É um ser com vida própria. Se São Paulo é a locomotiva do Brasil, o centro é o motor, com direito a barulho de britadeira até altas horas da noite em ano de eleição.
Nunca fui muito fã do centro, me cansava aquele monte de coisa acontecendo simultaneamente, já não sou muito boa com detalhes, o centro sempre me deixava confusa, não conseguia prestar atenção em nada. Depois de dois anos como habitue do local refiz minha visão. Só quem mora no centro consegue entender as 10 mil faces que ele tem. O centro ferve o dia todo e ainda sim é palco da vida rotineira dos seus moradores.
 Você conhece o tio da banca de jornal, o moço da padaria, a tia mal humorada do mercadinho, o homem que trabalha na loja de cd e sempre chega antes do chefe como em qualquer vila da periferia da cidade.
A diferença clássica está nas pessoas que aqui vivem, é a Babilônia! Se um gringo cair no mercado do lado de casa, só identifica que está no Brasil por conta dos preços em reais, mas se olhar pro lado vai ficar em dúvida; tem de tudo: nigeriano, angolano, boliviano, chileno, coreano, chinês. Eu acho o máximo, e condeno qualquer preconceito contra qualquer um que seja, admiro a coragem, a grande maioria vem pra cá para trabalhar pesado e propor uma vida melhor a suas famílias. Exatamente como fizeram meus avós quando aqui chegaram.
 É muito peito pra mudar com mala e cuia  pra um lugar estranho, de cultura e língua diferentes, sem amigos, sem suporte e com o único intuito de tentar uma vida mais digna.
 Eu estou falando de gente que foge da fome, e fome, amigo, nivela qualquer ser humano. É instinto, é o que move o homem desde sempre.
 A questão da violência no centro, eu confesso que não vejo muita diferença em relação a violência dos bairros, o que chama minha atenção é a sujeira e o convívio diário com a miséria e a droga. Sei que o assunto está em alta e que não posso deixar de falar da minha sensação não de medo, mas de tristeza e impotência.
 Definitivamente há muito o que se fazer e não temos a menor estrutura para lidar com esse problema. Em um mês de ação contra o crack não vi um agente de saúde, só vi tratarem doentes como bandidos. Nego acha que tem o rei na barriga quando só carrega uma farda e um 38 na cintura.
Assistir a tudo isso faz parte da nossa rotina, o centro é um ser com vida própria exatamente por isso, nem tudo são flores, não estou na NY sul-americana, aqui acontece de tudo que existe no nosso país, só que concentrado.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sorria e acene

Seja sorridente, inteligente, discreta, bem relacionada, bem sucedida, magra, alimente-se bem, seja sempre cordial, faça exercícios físicos, leia muito, fale ao menos 3 idiomas, vista –se bem, nunca tenha mau humor ( e se tiver disfarce, ninguém tem nada a ver com seus problemas). E, além de tudo isso; ainda tenho que ser LEVE!
Alguém ai, fora eu, tem sangue nas veias, ou eu vivo no mundo da Barbie? Não sou de porcelana, não sou padrão, e às vezes enche o saco ser aquilo que o mundo espera de você.


Ops, uma menina bem educada não usa esse tipo de palavra. Muito menos se indigna.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Despia-se apenas para ele. Colocava-se nua em pêlo e em julgamentos.
Ela não tinha vergonha ou medo do que ele pensaria, ou o que faria com aquilo que descobrira.
Era apenas ela, somente. Rendia-se ao prazer, não apenas o carnal, mas o prazer de se sentir protegida, ela sempre soube que ele nunca faria mal nenhum a ela. Entendia os seus desejos, os seus problemas, os seus valores e jamais os questionou.
Nunca faltava nada, dele ela tinha exatamente o que ansiava, nem mais, nem menos.
Ele era a sua válvula de escape, o alívio, a mão que acarinhava e a quem ela não temia.
Eles  nem sempre falavam tudo, nem precisavam; se gostavam, se respeitavam, e principalmente, torciam mutuamente pela felicidade do outro.
Sempre souberam que aquilo não duraria eternamente, e isso nunca os assombrou. Não havia o efeito colateral das relações normais: o apego.
Décadas depois, ainda soltam risinhos no meio de tardes tediosas de quarta-feira quando se lembram das tantas que aprontaram nos mais diferentes ambientes. Isso justifica qualquer julgamento que possam ter recebido, por serem humanos e terem vividos a relação mais sublime entre um homem e uma mulher.