sábado, 15 de abril de 2017

Afeto

Afeto a gente precisa doar, não  serve de nada se ele ficar guardado. Há 3 anos eu perdi um amigo. Suicídio.

Aquele tema que a gente prefere não falar, que não sabe o que dizer, que dá nó na cabeça e no coração. Eu terminei hoje de  ver a série 13 reasons why, e coincidentemente fiz isso no dia que completam 3 anos da morte do meu amigo. Eu não sei se isso mudaria algo, eu realmente não sei, mas eu queria ter feito algo, por isso que eu sempre faço, não consigo entender o porquê não ajudar se eu tenho a oportunidade. E isso é ainda mais significativo numa sexta-feira da Paixão, quando se é cristã.

Eu escrevi a carta abaixo esse ano, estava sentindo falta de escrever, de alguma forma isso expulsa os meus fantasmas, é como se eu vomitasse algo que não devesse ficar dentro de mim, algo que é maior. Não tenho a menor identificação com o suicídio, eu tenho a vida, por mais difícil que seja, como uma dádiva.  Eu gosto da luta diária, gosto da forma como desato os nós, gosto de saber que os dias difíceis, bem com os fáceis, tem apenas 24 horas e que tudo finda.

Dito isso, deixo a carta pro Rob, um amigo querido, que decidiu o dia que a vida findaria. Não te julgo, só queria que o mundo não perdesse o azul do seu olho e a forma sensível que você lia tudo isso aqui.




"Oi Rob,

Eu precisava escrever pra você antes de pegar no sono. Eu não poderia deixar passar mais uma vez que senti vontade de te dizer algo.
Bom, queria te contar como estão as coisas por aqui, eu ainda escrevo pouco perto do que você queria que eu escrevesse, mas continuo a mesma profissional sem medo de trabalho e que quebra a cabeça, mas aceita o desafio. Algumas metas foram batidas, mas há tantas outras a serem cumpridas.
Eu continuo não gostando de me arrumar pra ir trabalhar, esquece o tayer da executiva sênior que vc imaginava, eu acho que nasci pra ser do pensamento/execução/sapatilha mais do que da pose/scarpin/autoridade. Mas eu tenho evoluído.
Esses dias eu pensei em você, em como eu queria ter te dito o quanto você era querido, queria ter te acolhido, dito o quanto eu te admirava, queria ter te dito que devia ter te conhecido na Cásper pra ter mais tempo de dividir os dias e as ideias com você, de ter ido comer no refeitório do Einstein com você e ter vivido os 3 meses no HMO como vivemos.
Eu queria te dito que você é lindo, sempre soube que você sabia disso, mas queria agradecer por me olhar e dizer com os olhos que eu era linda, sem ser vulgar ou faltar com o respeito. Eu nunca acreditei, mas não posso negar que agradecia também.
Eu queria ter ouvido mais das tuas histórias, queria ter ido a sua vernissagem, eu queria ter aprendido mais sobre arte com você, queria ter brincado com a Anita, eu queria ter tido a oportunidade de trabalhar contigo de novo, queria ter a oportunidade de ter uma equipe tão legal como a nossa.
Eu sei que você escolheu o tempo que ficou aqui, mas eu queria poder te dizer tudo isso que escrevi nesse texto e que você não teve tempo de ler.
Que de alguma forma você tenha acesso a esse carinho, meu amigo.
Paulinha"