Acho que foi assim que ela abandonou as pipas e os peões.
Aos 15 anos, ela me encomendou para a cegonha. Com nome e tudo mais.
Seria uma menina e se chamaria Paula. Nunca perguntei o porquê especificamente ela pediu uma menina. Mas acredito que ter sido pelo fato de só ter irmãos homens. E de certa forma, até hoje, nossa relação muitas vezes parece de irmãs.
O tempo passou, ela casou-se, e dois anos depois, a encomenda chegara. E sem ultrassom ou qualquer tecnologia que previsse meu sexo, ela afirmava:" quem está na minha barriga é a Paula."
E como mãe não se engana ( e ai da cegonha enganar a sagitariana), depois de 10 horas de trabalho de parto e uma vitamina de abacate ( que por sinal é uma das poucas frutas que eu detesto); lá estava eu. Xerox autenticada com marca registrada no dedinho direito do pé, cabelo preto e olho escuro.
Como toda mãe de primeira viagem, ela conta que esterilizava tudo, nada passava sem uma dose de álcool antes de encostar no nenê que ela tanto pediu.
Minha mãe é emoção, o tempo todo, daquelas movidas pelo sentimento ao extremo. Por essas e outras o apego que eu aprendi a ter por ela e pelo meu pai, vem dela, com certeza. Imprimiu em mim muito da sua emoção além da necessidade de ter comigo aqueles que amo.
É a própria Maria do Bairro, sente tudo a flor da pele, quando ama, ama muito, quando sente raiva, esbraveja, qualquer um percebe o que ela sente.
A transparência e a sinceridade, com que sempre se mostrou, nunca fez com que eu criasse uma imagem idealizada daquela mulher. Os defeitos, as qualidades, as fraquezas: tudo, nunca foi segredo. Minha mãe sempre foi humana.
Se eu pudesse eleger sua maior qualidade seria o fato de não enganar a ninguém, e assumir, por mais dor que isso venha a causar, todos os seus atos.
Ela é intensa, mamãe vive como se o mundo fosse acabar amanhã, odeia amarras, vive por ela, desperta encantos, sente os maiores amores, e as piores dores. Por vezes é grossa, estúpida, mas nunca pediu a ninguém que esperasse doçura o tempo todo.
Sou uma mistura dos meus pais, tenho muito de mim, e só de mim. Mas reconheço reações e atitudes iguais as dela, por oras me orgulho, por outras me policio para não cometer os mesmos erros.
Ela é minha irmã mais velha, nunca senti medo, nem nunca tive distância dela, ela sabe de tudo que quer saber de mim. E ainda sim respeitamos os limites que a relação mãe-filha exige.
A Paulinha, que cismava em chamar sua mãe de Selma, mesmo quando ela insistia: "Mamãe" e eu retrucava "Mamãe Selma"; hoje cresceu, sonha e planeja seus próprios filhos, tem medos como os dela. Mas entende e agradece a Deus por ter lhe dado a mãe-irmã mais velha-Maria do Bairro- Selma Maria.
Parte do que sou, se moldou por ela. Muito mais que a pintinha no pé direito.
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